Um jeito mais harmonioso de praticar agricultura através do SAF

Publicado por Serta em 19 de julho de 2017

por Antônio Roberto Mendes Pereira – educador do SERTA

Foto: Marivaldo Silva/SERTA

Há diferentes formas de se fazer agricultura no mundo. Todas elas têm por traz um paradigma, um conjunto de valores e uma série de condicionantes ecológicas, sociais, econômicas e culturais que levam a se fazer um determinado tipo de agricultura em um determinado lugar, em detrimento de outro. Umas consideradas arcaicas, outras modernas, podem passar por um julgamento que possibilita elencá-las em uma escala de gradiente de sustentabilidade. Este artigo apresenta uma forma de praticar agricultura aonde a tendência do gradiente de sustentabilidade vai evoluindo para patamares cada vez mais equilibrados e produtivos.

Agricultura sustentável pressupõe uma relação ser humano-natureza, onde se deve buscar otimizar, e não maximizar, os recursos e os espaços existentes. Parte-se do princípio de que é mais gratificante e inteligente enriquecer o lugar do que explorá-lo, pois quando o local fica rico em vida, há excedentes, que gerará recursos para o próprio agricultor/a (Gotsch, 1995).

Observar e estar aberto para aprender, é a grande dica, pois nesses sistemas, acabamos por sermos aprendizes da própria natureza.

Os sistemas Agroflorestais sucessionais fundamentam-se em bases ecológicas e têm a sucessão ecológica como a mola mestra. É importante compreender o funcionamento da natureza para nos basear nesses fundamentos, a fim de elaborar, implantar e manejar sistemas de produção mais harmoniosos com esse meio.

Precisamos entender e aprender que a natureza tem uma dinâmica própria de organizar seus espaços de forma a aproveitar ao máximo todos os recursos e energias presentes e disponíveis no espaço. Tentar perceber esta dinâmica ou estratégia utilizada pelos ecossistemas naturais e imitar nos espaços cultivados pelo ser humano é um dos objetivos da montagem dos SAFs – Sistemas Agroflorestais.

A dinâmica do aumento de vida no menor espaço físico precisa ser entendida e imitada. A estratégia do aumento da biodiversidade e dos processos sucessionais é um dos segredos para o alcance do sucesso nos agroecossistemas. A otimização de todos os recursos disponíveis, desde a estratificação dos andares para melhor aproveitar a luz até a melhor utilização da umidade, fazem parte de uma intricada rede de relações entre todos os elementos vivos e não vivos na busca de manter grande quantidade de vida ativa, de forma que todo o espaço torne-se sustentável no tempo e espaço.

Foto: Romário Henrique/SERTA

Os SAFs também são conhecidos como floresta de andares, justamente porque considera as alturas de cada planta durante os diferentes estágios de uma Agrofloresta. Estas alturas, estes andares, são chamados de estratos. Em uma floresta podemos observar cinco estratos: emergente, alto, médio, baixo e rasteiro. A escolha da seleção de plantas cultivadas que irão compor o SAF deve seguir esta mesma lógica. Deve ter plantas de todos os andares e que todas elas sejam plantadas ao mesmo tempo, ou melhor, no mesmo dia.

Este conjunto de plantas juntas e misturadas faz com que várias propriedades emergentes surjam, contribuindo na segurança e na resiliência de todo o sistema. A ocupação de cada estrato pela vegetação influencia diretamente na quantidade de radiação do sol que chega ao solo, e assim o crescimento das plantas nos diferentes estratos.
O retorno de matéria orgânica ou biomassa para o sistema inicia-se com as podas, com as primeiras colheitas realizadas e pela morte dos elementos que já cumpriram sua função no sistema. Parte de toda matéria orgânica produzida pelo sistema deve voltar para o próprio sistema para manter a bioestrutura do solo, facilitando para que todas as raízes possam perambular e procurar seus próprios alimentos (minerais).

Uma das grandes vantagens da devolução de matéria orgânica permanente é a manutenção de um solo fofo, grumoso, diminuindo a necessidade da intervenção humana para manter o nutrido.

O retorno de matéria orgânica, de forma constante ou permanente, a biodiversidade de plantas, o uso inteligente do espaço vertical através dos estratos, a proteção do solo criada pelo conjunto de plantas, contra a radiação solar direta e uma vida microrgânica viva e ativa, são elementos fundamentais que precisam acontecer para que possamos iniciar o processo de entender e copiar as estratégias e dinâmicas utilizadas pelos ecossistemas naturais.

A manutenção do solo vivo e bem povoado por plantas, animais e microorganismos em uma sincronia permanente com certeza é o passaporte para o sucesso de quem pratica agriculturas de base ecológica. O SAF é uma dessas estratégias técnicas de chegar ao sucesso produtivo, sem causar tanto impacto, em harmonia com todo o trabalho da natureza.



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