O que transforma a vida de uma família sertaneja?

Publicado por Henrique Lee em 18 de fevereiro de 2020

Foto: @henriqlee/SERTA

Claudilene Euvira de Souza tem 40 anos e é casada com Seu Valdeni João dos Santos, de 50 anos. Eles vivem numa casa recém reformada no Quilombo Baixa das Quixabeiras, que fica a 7km do centro do município de Betânia, junto com os filhos Alisson, José e Andre. O Semiárido sempre foi berço, aconchego, vida e luta para a família. Mas os dias longos de Seu Valdemir fora de casa deixam todo mundo aperreado. São seis meses trabalhando no corte da cana e seis meses perto da família, onde é possível cuidar da roça, dos animais e de si mesmo.

O que o agricultor não sabia era que Dona Claudilene, que sempre o acompanhou no corte da cana por cidades a fora, está empenhada com o novo projeto de vida: montar uma barraca na feira livre, com os produtos que passou a produzir no quintal de casa. Não muito distante disso, Claudilene já vende ovos, galinhas, hortaliças, caprinos e sementes aos vizinhos da comunidade, que somam em torno de quinhentas famílias. Eles enxergam os verdes do quintal que contrasta com a caatinga, seja de perto ou pelas fotos que a agricultora compartilha em um grupo da rede social composto por dezenas de outros agricultores/as, facilitando as vendas e estimulando outros a produzirem também.

“Quando recebi essa cisterna (de 52mil litros, da tecnologia de enxurrada), eu decidi não ir pro corte de cana. Recebi também o dinheiro do Projeto Fomento, e comecei a plantar minhas coisinhas. Comprei uma forrageira, fiz o galinheiro, o aprisco dos bodes, uma horta, e estou vendendo na comunidade. Esta semana mesmo vendi sete galinhas”, conta, orgulhosa, Claudilene, que no pequeno quintal possui pés de acerola, cana, dois coqueiros, dois limoeiros, bananeiras, goiabeira, canteiros de couve, coentro, beterraba, alface, e, em outra área com pouco mais de quatro hectares, cria ovelhas e bodes.

O trabalho ainda é duro para Seu Valdeni, que durante metade do ano acorda diariamente às 3h30 para preparar o alimento do dia. Com o facão na mão, uma garrafa d’água e a marmita, às 5h ele segue para os canaviais sob o sol forte, onde trabalha até doze horas por dia. “Já vi gente não se aguentando e caindo morto, dá câimbra que você não consegue se mexer. E você não pode adoecer porque se você não trabalha você deixa de ganhar a mais”, diz o trabalhador que está se animando com a possibilidade de não deixar para trás sua vida com a família.

“Meu sonho é parar de viajar trabalhando e ficar mais em casa. Eu penso em trabalhar mais dois ou três anos e fazer um pé de meia pra deixar de ir. Vejo futuro na venda das galinhas. Trabalhando assim por aqui é uma forma de sobreviver”, conta Seu Valdeni.

Foto: @henriqlee/SERTA

Com os alimentos produzidos por Dona Claudilene, as sementes crioulas também passaram a fazer parte do negócio. Ela faz o tratamento, colocando no sol para secar, empacota numa sacolinha de plástico e põe adesivo “Cultura, Agricultura e Arte”, usado por outras mulheres do Quilombo. As sementes são comercializadas ou trocadas em feiras. “Além de ter para plantar eu ganho um dinheirinho vendendo”, diz a agricultora.

Os próximos passos de Dona Claudilene é seguir nos estudos. “O filho mais velho, Alisson, de 20 anos, parou na sétima série pra cortar cana. Clebson tem 19 e vai concluir esse ano. Ele ver o sofrimento do irmão e do pai, e diz: _ Mãe, eu quero terminar meus estudos pra não ter que trabalhar nesse serviço. E eu, que fiz até a sexta série, estou ansiosa pra me matricular. Essas vivências nos intercâmbios me despertou muita coisa! Depois que concluir quero fazer agroecologia no SERTA”, revela.

A cisterna, o galinheiro, os pés de coentro, de couve, as sementes, o conhecer experimentos de outros agricultores têm libertado, transformado e estão enchendo de vida a vida de Dona Claudilene, que erradia boas energias para o futuro.

Foto: @henriqlee/SERTA



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