O Chão da Terra – capítulo III

Publicado por Henrique Lee em 10 de abril de 2020

MARIA

“Maria, Maria É um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta.” 
Milton Nascimento

“Sou alguém que veio ao mundo em forma de sorriso, para estar sempre de com a vida. Às vezes acordo descobrindo um silêncio feito de paz. Sei a grandeza da fé, o tesouro da esperança e a imensidão do amor. Gosto de viver a vida. Aproveitar as oportunidades que vem pela frente. Quero um mundo melhor, por isso contribuo com todos que estão ao meu redor.”

As propostas para os integrantes do Chão da Terra realizar trabalhos de teatro com outros jovens começaram a surgir. Fábio e Cleiton foram convidados a realizar uma formação de desenvolvimento pessoal, através do teatro, em três escolas do município de Orobó. A primeira atividade remunerada dos meninos. Ganhavam uma bolsa que somava pouco mais de cem reais, para três dias de atividades por semana. Pode parecer pouco, porém, a experiência trouxe muito conhecimento e prática. Eles foram convidados a ministrar oficinas com professores, diretores e monitores do PETI – Programa de Erradicação do Trabalho Infantil -, em Lagoa de Itaenga, ainda cursando o segundo ano do Ensino Médio.

No mesmo ano, final de 2003, o SERTA juntamente ao CRIA, elaborou o projeto Teatro na Escola. A ação foi desenvolvida em parceria com secretarias de educação em três escolas piloto dos municípios de Glória do Goitá, Feira Nova e Lagoa de Itaenga. A proposta era formar um grupo de teatro com adolescentes, a fim de ampliar a metodologia e influenciar nas políticas públicas das cidades.

Desafio aceito por Maria da Paz ou Zezé, como é chamada. A jovem reconhece a força que tem de outras “Marias” do lugar onde nasceu. Sua mãe, Maria de Lourdes da Conceição, compõe o retrato da mulher descrita na poesia de Milton Nascimento, “possui uma força que nos alerta”. Teve doze filhos, dos quais apenas três se criaram: Luiz Carlos, José Luiz e Maria da Paz. Moradores da zona rural, sem acesso a saúde pública, nascer e se criar já eram uma grande vitória para os que não morreram de parto prematuro ou de pneumonia.

Por ter uma educação fiel aos princípios da família, Maria tinha receio de compartilhar certas coisas com os pais, pois temia reações adversas. O diálogo quase não acontecia. O temor era tanto que não avisou aos pais quando na 5ª série, por falta d’água na escola, saiu no intervalo da aula com uma amiga para pedir água na casa ao lado. Notando sua ausência, a professora puniu-a com quinze dias de suspensão, submetendo-a a entrar na escola somente mediante a presença do seu responsável.

Maria escondeu dos pais o que havia acontecido por medo de ser repreendida. Chegando da escola, disse que não queria mais estudar. Os pais pouco se preocuparam com sua decisão. Mas uma amiga de classe, sim. Escreveu uma carta falando da importância de continuar estudando, pedindo que ela voltasse. A cartinha sensibilizou Maria e ela pensou no que a amiga havia escrito. Mesmo assim, passou seis meses sem frequentar as aulas. No ano seguinte foi para uma escola nova. O novo ciclo trouxe firmeza a Maria. Desta vez, sem desistência, seguiu estudando.
O dinheiro limitado despertava a criatividade para remodelar suas poucas peças de roupa. Puxava calças, pregava fitas, cortava blusas, mudava cores, enfeitava com rosas. Tudo se transformava, assim como dava um “jeitinho” para se safar dos problemas financeiros.

Rifou uma caixa de chocolates a concorrer no dia dez. Resultado na última dezena do jogo do bicho. Valor: 25 centavos. – A apuração da rifa ficava em torno de sete a oito reais. Os vencedores eram tão ocultos, que nem mesmo ela sabia. O prêmio nunca foi entregue.

Carregar lata d’água para os vizinhos também gerava boa renda. Cada lata custava cinquenta centavos. No final da tarde a dor na coluna parecia valer o sacrifício do pequeno lucro.

Na casa de farinha, raspando mandioca, não obteve muito dinheiro. Até mesmo um amor, que conheceu por lá, durou pouco, não deu certo. Ficou apenas o prejuízo nas mãos esfoladas pela raspagem, e o coração partido.
O “jeitinho” não foi apenas para ganhar dinheiro. Antes de entrar no teatro, Maria possuía certa dificuldade em se expor publicamente. Saiu correndo com muita vergonha para fora da aula, no meio de uma apresentação da escola.

Seu desempenho melhorou a partir dos jogos que participava durante o teatro, com o Chão da Terra. O planejamento das atividades seguia um roteiro básico: aquecimento, concentração, elaboração de cenas e avaliação. Os jogos mudavam de acordo com a proposta de cada encontro. Quando o grupo precisava se integrar, os orientadores propunham jogos que fomentavam a interatividade. Para estimular a comunicação verbal, os jogos incitavam a fluência da oralidade e a confiança física. E assim sucessivamente: conhecer o corpo, testar limites, cuidar do outro, manter atenção, ter senso crítico, liberar energia, concentrar… Todos estimulados com criatividade. Esta metodologia estava baseada no livro Manual de Criatividades, de Maria Eugênia Milet e Paulo Dourado, e era desenvolvida no teatro do CRIA e, consequentemente, na experiência que era desenvolvida com os jovens pernambucanos.

Adolescente que crescia sedenta de coisas novas, pois a cidade onde morava não oferecia. Maria teve uma oportunidade surgida entre paredes. Estava no quarto quando ouviu a vizinha, Joseane, comentar com o pai, que um projeto novo havia chegado à cidade, e que queria participar. Maria interessou-se pela conversa, e aproximou-se da parede para poder escutar mais sobre o assunto.

A conversa de Joseane com o pai já estava no fim. Maria precisava saber o que fazer para entrar nesse projeto também. Como não falava com Joseane, tentou buscar informação com outra vizinha, que lhe contou detalhes. Era o curso de Agente de Desenvolvimento Local (ADL), do SERTA. Maria se inscreveu, mesmo contrariando a vontade de sua mãe, que preferia as coisas do jeito que se encontravam.

Participou da seleção, no entanto, foi desclassificada. No estágio com tantas palavras novas proferidas por pessoas falantes e desinibidas; ela mesma deu o seu parecer. Sabia que não estava pronta para aquele momento. E como superar as limitações sem alguém que a ajudasse? Era possível se preparar sozinha? Pois, ela mesma se preparou. Passou a observar o comportamento de outras pessoas.

Com o tempo, surgiu uma nova oportunidade para o curso de Agente de Desenvolvimento da Arte e Cultura (ADAC). Novamente se inscreveu. Desta vez, colocando em prática o que aprendeu consigo mesma. Seu desenrolar foi surpreendente. Já não estava tão acanhada como antes. No início da avaliação, notou que Jadison não apresentava o mesmo perfil. Tentou dar forças dando-lhe um abraço – Sou sua amiga. – disse. Resultado: ambos selecionados.
Joseane também foi escolhida. A comunicação entre as duas voltou a acontecer. Mas de uma forma inovadora.

Quando criança, elas tiveram um desentendimento. Algo normal, da fase. Os pais é que levaram a sério. Proibiram as duas de se falarem. Na tentativa de não levantar suspeita de que estavam se falando, uma canção era improvisada por Maria, avisando a Joseane, que já estava de saída:

– Ôoo… Eu vou sair ô, ô, ô, meu amor. Eu vou, eu vou… – entoava. A resposta vinha em mesmo tom:

– Alô, eu vou já. Vou, eu vou. Ê… Vai descendo na boquinha da garrafa… – a canção fazia Maria entender que era para descer a ladeira, e esperá-la embaixo, que também estava de saída. O truque dava certo. Outros códigos também eram usados: porta aberta era sinal que havia saído; assovio era para descer, e se encontrar na outra rua; sons de pássaros também. Assim mantinham o diálogo e a amizade, às escondidas.

Maria se deu conta de que precisava melhorar sua relação com as pessoas, isso veio à tona numa atividade do curso: escrever um cartão e entregar a pessoa que gostaria que mudasse. Ela foi recorde em recebimentos. Repensar sobre certos valores fez com que sua relação interpessoal melhorasse.

Este foi um ponto a mais para entrar no grupo Chão da Terra. Foi selecionada a fazer parte deste projeto, na sua nova formação do SERTA. Nesta experiência de teatro, descobriu-se enquanto gostos, vontades, identidade. Passou a se comunicar com facilidade e dividir seu “eu” com outras pessoas. A dificuldade era de descobrir seus sonhos. Imaginava que eles pertenciam apenas ao futuro, e que só apareceriam mais tarde.

Com a vivência dentro do Chão da Terra, descobriu que poderia passar seus conhecimentos para outras pessoas. Não sabia se era capaz, mas decidiu apostar nesse ideal.

Maria teve seu primeiro contato frente a um grupo de adolescentes, quando aceitou ser monitora do projeto Teatro na Escola. O trabalho não se firmou como planejado, por contratempos no acompanhamento pedagógico e apoio financeiro. Foi insuficiente para seus aprendizados. Entretanto, o pontapé inicial para se descobrir enquanto arte-educadora popular.

A ideia de fundar a Cia. de Teatro Ecos, formada por catorze adolescentes do Ensino Fundamental, durou apenas um ano. A permanência do projeto decorreu da persistência do grupo em querer dar continuidade ao trabalho. Entretanto, as circunstancias não se adequaram à disponibilidade de Maria seguir com a atividade como voluntária.
Para chegar a ponto de assumir um grupo de teatro, como orientadora, foi um processo de evolução construído a partir de estudos. Depois da conclusão do espetáculo Nossa Gente, Nossa História, os arte-educadores do CRIA retornaram a Salvador, ficando Andrea, de Glória do Goitá, acompanhando a vivência do grupo, na elaboração dos planejamentos de aula, estudos de textos e orientação artístico-pedagógica. A equipe seguia como principal fonte pedagógica, os princípios fundamentados na metodologia da Proposta Educacional de Apoio ao Desenvolvimento Sustentável (PEADS), de Abdalazis de Moura, O livro Manual de Criatividades de Maria Eugênia e Paulo Dourado, e Aprendendo a Ser e Conviver de Margarida Serrão e Maria Clarice.

Reconhecendo a ação no município, o prefeito da cidade contratou Maria para desenvolver atividades de arte, com crianças, mas apenas seis meses durou o contrato.

Distante de casa, dos amigos, de tudo e de todos, Maria passou a superar seus medos e desafios. No fim de 2004 e início do ano seguinte, ela foi submetida à experiência mais profunda que já havia vivido, no município de Inajá, sertão de Pernambuco. Quando recém concluía o Ensino Médio foi convidada pelo SERTA para realizar um curso de arte-educação, tendo como meio o teatro. Em paralelo a estas atividades, o grupo Chão da Terra mantinha suas apresentações com o espetáculo “Nossa Gente, Nossa História”.

Maria liderou um grupo de 22 jovens, com idades entre 15 e 24 anos. Tinha apenas dezoito anos e teve receio de ser mal aceita pelos mais velhos, no entanto, esta preocupação acabou no primeiro dia do curso, quando trocou confiança e respeito com o mais novo grupo de teatro que estava sendo criado.

O curso era baseado na metodologia presente nas atividades oferecidas pelo SERTA – a PEADS – que é resultado de reflexões e práticas em escolas, programas assistenciais, formação de produtores, educadores e jovens da instituição. O método se estrutura em quatro etapas: pesquisa, análise e desdobramento, devolução para a ação, e avaliação. A mesma atividade acontecia nos municípios vizinhos de Ibimirim e Manarí, sendo facilitada, respectivamente, por duplas de jovens atores do grupo Chão da Terra: Adriana Freitas e Fábio Júnior, Márcia Nazário e Michel Lacerda.

Compartilhar os saberes com outros adolescentes e jovens do Sertão pernambucano era como se fosse um presente para os caboclinhos do Chão da Terra. Muitos dos jovens sertanejos se arrastavam cerca de vinte quilômetros para chegar até o local do curso. Contudo, mantinham o sorriso exposto, trocando lamentação pela ambição de se mostrarem capazes de tornar seus ideais possíveis quantos os de qualquer outro jovem que possuísse as facilidades de viver em municípios mais desenvolvidos.

A trajetória marcada por mútuos desafios foi concretizada na formação dos grupos Flor de Xique-Xique, do município de Inajá, encenando o espetáculo Desperta Jovem; Lengo-tengo Arretado, de Ibimirim, com a peça Ai, meu coração! E Pedras, de Manarí, com Em busca da cidade esquecida. Naquele momento, esses municípios se encontravam com os menores IDH do país (IBGE 2000).

A atividade do teatro foi capaz de contribuir minimamente para a educação, sobretudo, em levantar a autoestima dos jovens da região, que se reconheciam dentro dos espetáculos. As peças provocaram comunidades, escolas e professores a pensarem sobre seu papel na construção da cidadania, e na elaboração de políticas públicas capazes de estabelecer soluções de melhoria na qualidade de vida de todos. Uma pequena semente foi plantada por Maria, e pelos demais companheiros do Chão da Terra, que no momento evoluíam de jovens atores para jovens educadores.

A partir desse trabalho, em meados de 2005, o grupo Chão da Terra encerrou suas apresentações com a peça “Nossa Gente, Nossa História”. O grupo foi se desfazendo aos poucos. Já não havia investimentos que o mantivesse. Não teve nenhum encerramento formal. De repente, se viram distanciados uns dos outros. Mesmo assim continuaram atuando como arte-educadores, porém dispersos.

Novamente Maria foi convidada pelo SERTA para ser arte-educadora popular do projeto Direito e Cidadania, no município de Itacuruba, região do São Francisco, no sertão pernambucano.

Juntou suas coisas, pegou um ônibus e aportou na cidade de apenas cinco mil habitantes. Apresentada ao prefeito da cidade como uma jovem arte-educadora que acompanharia os trabalhos de produção de arte do município. Com apenas dezenove anos, e certificado de Ensino Médio engavetado, Maria se viu desafiada a ter que dirigir atividades com professores formados em universidades, gestores educacionais e dirigentes relacionados.

Preparou o plano de aula. Vestiu uma calça jeans, a camisa da Aliança com o Adolescente. De olhos fechados, respirou profundamente, e seguiu confiante, rumo à Secretaria de Educação.

– Sou Maria da Paz, conhecida como Zezé e moro em Lagoa de Itaenga… Lá perto de Recife. Tive uma formação em teatro através do Centro de Referência Integral de Adolescentes, que fica em Salvador. Uma experiência que vem me oportunizando a contribuir na formação de jovens e professores. Faço parte do SERTA, e estarei com vocês durante a oficina de arte-educação, com tempo previsto de um mês. Espero que a gente possa construir muita coisa boa durante esse tempo, e que gostem do meu trabalho também. – discursou, seguramente, às pessoas do curso.

Por possuir a única copiadora da cidade, Dona Cleonice era mais conhecida que farinha de mandioca. Ela quem ofereceu subsídios às atividades realizadas por Maria. Junto a Dona Cleonice e demais jovens participantes, outros 25 estudantes do Projovem estiveram juntos na montagem cênica do curso.

A peça foi dirigida por Maria da Paz e apresentada em praça pública, com um cenário montado a partir de materiais encontrados na paisagem da própria cidade: casas de pau a pique, poço, fogão à lenha, cactos, mandacarus e galhos secos da vegetação catingueira. O figurino foi baseado nas indumentárias utilizadas no dia-a-dia dos itacurubenses: vestidos e camisas de algodão, sandálias e chapeis de couro, bisacos, cabaços e cartucheiras. O enredo da peça contextualizava a história dos moradores da cidade, envolvendo os personagens Lampião e Maria Bonita.

O teatro ao ar livre nunca visto pelos moradores parou a pequena Itacuruba. Teve destaque no jornal Lampião – periódico que circula no lugar. A missão estava concluída. Maria voltou para a sua cidade. Após um mês recebeu novamente o convite para coordenar atividades de arte e capacitar professores. A última, por um ano.

Depois de tantas idas e vindas, retornou à sua terra. Desempregada, decidiu juntar-se a duas amigas para negociar com venda de pastéis e outras massas. Por um momento imaginou que teria sua sustentabilidade garantida. Entretanto, a associação foi à falência.

Uma ONG local convidou-a para iniciar com atividades na formação de adolescentes em situação de risco. A ação foi assumida. Mas algo não estava do mesmo jeito. Alguma coisa estava entre os pensamentos de Maria. Ela queria um emprego garantido. Ainda possuía a carteira de trabalho em branco, e a inconstante jornada de tarefas lhe deixava insegura. Pensativa, e tendo as coisas que havia feito ainda muitos presentes em si, despertou-se para outras possibilidades que gostaria de apostar.

Foi então que uma prima lhe convidou para ser empregada de uma família rica do Recife. Abandonar tudo para ser doméstica? Hesitou, resistiu, mas terminou aceitando.

Apartamento luxuoso. Classe nobre de Boa Viagem. Família de um magistrado. Apresentou-se aos patrões. Logo estes lhe passaram as tarefas a cumprir, uma delas, cuidar de duas crianças. – Babá? -, sussurrou para si. Tempo esgotado para pensar no que havia feito, sem demoras, foi acompanhá-los num aniversário de luxo. – Mas com que roupa? Babá vai de mortalha. – pensou, e encarou o que para ela seria um sacrifício. Desceu vergonhosamente da limusine. Quase entrou em transe com os holofotes iluminando sua expressão de ama-de-leite. As luzes acesas daquela forma eram quando estava apresentando o espetáculo do grupo.

A aniversariante se apresentou aos convidados. Um vestido com pedras brilhantes, como uma boneca em seu ápice de beleza. Aquela cena fixada na memória, a fez refletir sobre sua infância; pensou em tudo que havia conquistado, nas coisas que aprendeu a partir do teatro. Acreditava que podia mais. Que aquilo não era uma realização sua. Pensando nisso tudo, em dois dias, pediu demissão.

“Eu tinha muitos sonhos. Queria estudar e construir minha vida. Eles não iriam olhar o meu pessoal, estavam interessados no serviçal.”



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