O Chão da Terra – capítulo II

Publicado por Henrique Lee em 7 de abril de 2020

FÁBIO

O homem de hoje deve criar o seu futuro. Para não ser esmagado por ele”.
Josué de Castro.

“Arte. Nela eu busco refúgio e conforto, pois sou grato a Deus por ter um dom muito especial. Em minhas mãos tenho a mágica de transformar simples lápis, papéis e pincéis nos rostos das pessoas que mais gosto. Lutar pela preservação de minhas raízes culturais, este é o meu objetivo.”

 

“Um absurdo isso, gente! Não sou estrela coisa nenhuma. Só porque comecei a desenvolver o que aprendi, não significa que estou querendo ser melhor que vocês. O “fazer valer” é resultado do que aprendi aqui dentro. O que vocês também aprenderam. Se vocês se incomodam tanto, deveriam fazer o mesmo.”, discursou contundente, entendendo que estava criando seu futuro e poderia despertar o futuro de muitos do grupo.

O curso, a todo vapor. De segunda a sábado, às vezes aos domingos, estavam todos lá na ativa. Fábio Júnior se considera o que mais provocava o grupo. Sendo um dos mais velhos, possuía experiência superior à maioria, já que havia participado de um dos cursos oferecidos pelo SERTA. Também vivia em Lagoa de Itaenga, numa vargem próxima ao centro da cidade. Um artista autodidata que aprendeu a pintar desde cedo, quando reproduzia desenhos da tevê. Muitos deles contornados com angústia, em suas lembranças de um passado amargo.

Abandonado pelo pai e com a mãe, Dona Berenice, desempregada, Fábio passou a morar com a avó, Dona Bio, desde os seis meses de idade. É uma senhora extremamente ignorante. Gênio de uma criação arcaica, na lei do espancamento, na educação estabelecida à base do cipó. Velha comprida, com abdômen semelhante a uma gestação de seis meses. Cabelos grisalhos, alongados e soltos sobre o corpo. Portava um relógio Oriente no braço direito, uma aliança de ouro no dedo médio da mão esquerda e um dente molar de ouro. Sua casa possuía paredes altas, com três quartos amplos, duas salas enorme, uma cozinha, um quintal. Tudo muito extenso e vazio. Seu quarto sombrio, possuía uma escuridão profunda, submerso em bonecas de pano, feitas por ela mesma.

Aos seis anos foi matriculado no colégio municipal João Vieira Bezerra, onde juntou as primeiras letras. A recordação do primeiro dia de aula na escola é tão recente quanto à da última refeição: sentou-se na segunda cadeira da segunda fila, próximo ao quadro negro. A professora Márcia não teve tanto trabalho para alfabetizá-lo. Fábio aprendia rápido. Gostava da praticidade e rapidez. No intervalo da aula comia o preparo da mãe armazenado na lancheira: bolacha cream cracker, doce de goiaba e suco artificial de morango dentro de uma garrafinha plástica.
Dona Bio reservava aos netos as palavras mais baixas. Sua grosseria ultrapassava os limites. Palavrões, pragas e vários tipos de perversidades pareciam nutrição constante. Fábio não entendia o porquê de suas maldades e injúrias, já que ele e seus irmãos não davam motivos. A não ser à saída de casa. Este sim era um grande motivo para despertar a ira da dona Bio. Todos deveriam permanecer o dia todo trancados no imenso casarão oco.

A avó de Fábio costumava vender goma de mandioca e verduras na feira livre de São Lourenço da Mata. Para fazer isso, ela saía de casa à madrugada da quinta-feira e retornava ao domingo. Eram os dias da felicidade para Fábio e seus irmãos, que podiam ser crianças comuns e brincar com seus colegas da rua.

O sol do sábado se escondia no horizonte. Lá também se ocultava a alegria dos meninos. O amanhã seria domingo, e o terror estaria de volta. Ao retornar, dona Bio trouxe de São Lourenço da Mata uma correia de sofá. O objeto automaticamente chamou atenção de Fábio e irmãos, já imaginando que serviria como instrumento de açoite. Amedrontados com o que poderia acontecer, entraram às escondidas no quarto da avó para buscar a correia e dá-la um fim. O quarto tenebroso, como uma masmorra, deixava os meninos ainda mais aflitos. O plano teve sucesso. Esconderam a correia. Dona Bio não demorou a notar que sua “arma” havia sumido. Substituiu-a, então, por um cipó espesso de jucá. Desta vez escondido misteriosamente.

Numa das idas e vindas de Dona Bio à feira de São Lourenço da Mata, Fábio aproveitou seu fim de semana longe de todo o aperreio que a presença da avó o causava. Sentou-se na calçada da vizinha no sábado à tarde. Não correria riscos por conversar com o pessoal da vizinhança naquele dia, já que sua avó chegaria no dia seguinte. Não imaginava o que estava por vir. Dona Bio apareceu, entrou na sua casa, e não notou Fábio que estava na casa ao lado. Desesperado, já imaginando a reação da avó quando notasse que ele não se encontrava em casa, Fábio se pôs a chorar. A vizinha tentou acalmá-lo prometendo convencer sua avó a não batê-lo. O que seria impossível.

– Dona Bio, Fábio estava comigo lá em casa. Não bata nele não, viu. Disse a vizinha na tentativa de absolvê-lo do castigo. Defesa sem sucesso. Dona Bio, sentada em uma cadeira de balanço, apenas pigarreava, temperando a goela, contando os segundos para se ver livre da vizinha. Feito isso, preparou um novo cipó. Desta vez de uma espirradeira, planta que escorre um leite e quando em contato com a pele, provoca uma dor imensa. Foi até o quarto de Fábio, onde se escondia sob os lençóis da cama. Puxo-o pelo cabelo e começou a torturá-lo com chicotadas nos pés, na barriga, no rosto. Não tinha limites para bater. Fez isso até se cansar.

Berenice assistia a cena, mas não podia reagir, pois estava sob as condições estabelecidas pela mãe. Uma noite sem fim para o menino de doze anos que se perguntava o porquê de tanto sofrimento. Noutro dia já não sentia as partes do corpo, adormecidas pelas pancadas.

Foi assim, nesse espaço tumultuoso e de conflitos, que Fábio cresceu. Suas recordações sempre surgiam nas rodas de diálogo feitas no grupo de teatro. Funcionava como uma atividade terapêutica, mesmo que não fosse o objetivo. Em um círculo fechado, cada um contava um pouco de si. Nada fluía assim, rapidamente. As coisas eram reveladas na medida em que um gerava confiança no outro. Uma forma de o grupo se conhecer mais profundamente e buscar entender o outro como indivíduo. As descobertas eram mútuas.

Os fogos de artifício anunciavam a chegada do ano novo. As pessoas da rua viviam uma animação típica de fim de ano. Gente se abraçando, festejando, sorrindo. A criançada correndo pela rua. A casa de dona Bio destacava-se entre as demais. As luzes todas apagadas. Na calçada, o semblante triste de Fábio, sua mãe e seus dois irmãos assistindo aquela festa acontecer. As pessoas passavam e gritavam “Feliz Ano Novo”… Feliz Ano Novo.

Um vizinho notou o menino cabisbaixo da família, aproximou-se, colocou Fábio no colo, e começou a brincar, jogando-o para cima. Nos giros da brincadeira, com o sorriso estampado no rosto, Fábio imaginava que devia ser assim ter um pai…

As confusões aumentavam a cada dia. A convivência naquela casa se tornava muito insuportável. Coisas estranhas começaram a aparecer. A vizinhança comentava que ali tinha “coisa do demônio”. Alguns diziam que Dona Bio atraia coisas más para a casa: buracos apareciam sem explicação na parede; sons estranhos vinham do quintal; as telhas caíam; cheiro de perfumes à noite. Por duas vezes, um menino pequeno, de cabelos lisos, usando bermuda marrom, sem camiseta, apareceu para Fábio na cozinha da casa, desaparecendo em seguida. Não dava para continuar morando ali.

Havia tantas brigas na família que chegou o tempo de ter dois fogões dentro de uma mesma cozinha. Berenice usava um, Dona Bio outro. Ninguém mais se falava. Panelas e pratos separados. A disputa era para ver com quem a visita almoçava. O cardápio de Dona Bio, um prato de inhame com charque. O de Berenice: farofa, macarrão ao molho de tomate, carne guisada e salada. A visita deu preferência ao segundo. Mais ira despertou em dona Bio, que agora invisibilizava todos da casa.

Com tantos motivos para haver uma separação familiar, o pretexto acabou sendo um jerimum cozido, preparado por Berenice. Quando o prato estava à mesa, ela convidou a mãe para provar, que se manifestou com palavrões. Pronto. Motivo para Berenice recolher todos seus filhos e morar numa casa alugada, já que havia conseguido emprego na prefeitura. A partir da nova casa, longe da avó, a vida recomeçou para Fábio.

Mesmo com todo o trauma de infância, seus desenhos nunca revelavam sentimentos ruins. Nunca deu preferência a retratar passagens de sua vida. Todo dia desenhava figuras e personagens de games. Eram centenas de desenhos engavetados. Não todos. Muitos deles eram vendidos aos moleques da rua que se interessavam.

Desenhos em folha de papel, por que não em telas? Com ousadia, começou a produzir alguns quadros. Justamente nesta época o programa Aliança com o Adolescente foi disseminado na região. Um convite foi lançado para que ele expusesse seu trabalho no festival de arte e cultura, no dia 26 de novembro de 1999. A exposição garantiu uma oportunidade para participar da construção da logomarca da Aliança, com outros adolescentes da ONG Auçuba, de Recife. Este seria o seu primeiro contato na área social. Seria se não estivesse envolvido com um grupo de jovens do município, que realizava anualmente a encenação da Paixão de Cristo.

O programa Aliança foi, de fato, lançado e implantado no SERTA. Fábio, junto com outros jovens do Território da Bacia do Goitá, iniciou a formação voltada para a agricultura orgânica. No entanto, não se identificou com o curso, pois produzir arte era seu interesse maior. Um ano e meio foi o tempo que passou até entrar no curso de teatro. Sua intenção era melhorar seu trabalho técnico de teatro com o grupo da Paixão de Cristo.

– Quando é que vai começar a peça? –, questionou Fábio a Eugênio, o orientador do CRIA. – Já começamos. – respondeu com um sorriso. Nem Fábio nem muitos do grupo entendiam que o teatro já havia começado. O primeiro dia de atividade do curso foi para escreverem o “Quem sou eu?”. Esta atividade tomou conta de toda semana. Aquele texto, produzido por ele e por cada um do grupo, foi virando cena de teatro. Era um teatro diferente. Os personagens eram eles próprios.

“No princípio apenas vivendo a oportunidade de fazer teatro, de conhecer novas pessoas, lugares, de conviver com grupo de opiniões diferentes. Depois entendendo melhor a dimensão do que todo aquele processo se tornara significativo na minha vida, e no que podia gerar também na vida de outras pessoas.” Disse Fábio em uma atividade de avaliação.

A partir da desistência de muitos jovens do grupo é que a peça tomou o rumo de sua construção. Ficaram apenas os que queriam muito, se expressar através do teatro. A peça, inspirada nas histórias dos jovens da região da Mata, foi se compondo aos poucos. O espetáculo viria a se chamar “Nossa gente, Nossa história”.

O grupo mantinha uma personalidade intensa. A faixa etária de idade era de quinze a dezenove anos. Pessoas que estavam construindo seus valores, formando seus ideais, buscando seus espaços. Os conflitos no grupo e a falta de entendimento de um para com o outro eram acompanhados por psicólogos, que passaram a realizar terapias grupais e individuais. A coordenação avaliou que além do que se trabalhava com o teatro, o corpo, a voz, e com as improvisações, os participantes necessitavam desta atenção.

“O teatro me proporcionou o maior período de aprendizagem, por conviver com pessoas diferentes. Estávamos juntos a todo tempo”.

Após o trabalho cênico do “Quem sou eu?”, textos, a partir da visão de Abdalazis de Moura, Gilberto Freire, Kaká Werá Jecupé, na amarração de Maria Eugênia Milet, deram composição ao segundo bloco do espetáculo, que seguia contando a trajetória de vida dos personagens Mateus, Caterina, Colotilde, Zefinha, Frederico, Das Dores, Seu Elias e os bonecos de mamulengo, Caroca e Miroca. Cada personagem era construído pelo próprio ator. Fábio era Mateus, que tinha parceria da Márcia, no papel de Catirina.

Os ensaios aconteciam em salas espaçosas, de janelas grandes, no SERTA.

A peça era dividida em blocos. Quando um estava pronto, as famílias dos jovens atores e agricultores participantes da formação do SERTA eram convidadas a assistir. Enquanto o grupo apresentava as cenas criadas, o público caía em pranto. As lágrimas eram de emoção por verem histórias tão semelhantes as suas, sendo retratadas por aqueles jovens cheios de força. Depois de inúmeros ensaios, o grupo Chão da Terra, como assim foi batizado, estava pronto para estrear.

Nordeste que tem mais de um
Sertões de areia rangendo
De couro, gente de aço
Descalços mandacarus.
(texto do espetáculo “Nossa gente, Nossa história”)

Lendas, danças, músicas e a força expressiva do elenco, dinamizavam o espetáculo. O texto ágil, construído de forma coletiva, o espetáculo apresentava possibilidades inovadoras para seu povo continuar na sua terra natal, encarando como desafio o desenvolvimento sustentável. Para isso, buscaram a história do povo do Nordeste, suas lutas, belezas e potencialidades. O grupo Chão da Terra se tornou um sucesso na região, e em todos os lugares por onde andava.

A oficina de teatro que, a princípio tinha o objetivo de formar um grupo e montar uma peça sobre a realidade local, foi o começo de uma proposta bem mais ampla. Maria Eugênia Milet passou a interagir com o SERTA, dando assessoria à área de cultura da instituição. O grupo Chão da Terra passou a ser o centro da proposta de arte e cultura, sensibilizando jovens, educadores e representantes das comunidades dos quatro municípios para participarem de um projeto articulado, voltado para o desenvolvimento local. A peça circulou com o mesmo espetáculo por três anos, com apresentações ininterruptas.

O grupo participou de diversos eventos ligados ao desenvolvimento sustentável, estabelecendo intercâmbios com grupos de movimentos juvenis. Apresentaram a peça em vários teatros, nos maiores do estado: o Guararapes e o Centro de Convenções da UFPE. Todos os jovens atores ficaram deslumbrados com aquele espaço nunca visto antes pela maioria.

A cada apresentação realizada, mais conhecimentos os jovens adquiriam. Andaram por cidades de Pernambuco, Ceará, Paraíba e aportaram no Rio Grande do Sul, onde se apresentaram na primeira Jornada Nacional do Jovem Rural, em Gramado.

Grupo Chão da Terra, na estréia do espetáculo “Nossa Gente, Nossa História”, em agosto de 2002, Lagoa de Itaenga. (Arquivo Álbum Chão da Terra)

 

Pouco mais de um ano da iniciação do grupo Chão da Terra em contato direto com a arte, incluindo uma permuta que fez no CRIA, conhecendo o Movimento de Intercâmbio Artístico Cultural pela Cidadania (MIAC), fez com que Fábio se dispusesse a criar um grupo de teatro, utilizando da metodologia ao qual foi inspirado. O primeiro passo para um nível de entendimento maior sobre o teatro educativo que estava fazendo parte, e se propondo a mobilizar mais gente a fazer.

Alguns amigos, e amigos de amigos, e interessados em fazer teatro foram se juntando a Fábio. Aos poucos estava composto o grupo de teatro Fazer Valer, com quatorze jovens, sedentos pela arte de mobilizar.

A partir do processo de difusão da experiência, Fábio identificou o efeito que seu trabalho causava no grupo. Mudanças ocorridas nele que, por vezes, enxergava de fora para dentro: liderança, criatividade, resolução de conflitos, autonomia, expressividade, responsabilidade, criticidade.

A peça de nome “Diversidade”, criada pelo grupo, circulou por escolas e comunidades do município. Os adolescentes do Fazer Valer retratavam em sua peça a história da cidade onde moravam: Lagoa de Itaenga, e dialogavam com o público, depois das apresentações, sobre conflitos da adolescência, drogas, sobre a importância do diálogo na família, sobre a participação dos jovens na construção de políticas públicas voltadas para a educação e juventude, sobre o exercício da cidadania. Estas rodas de diálogos com as plateias faziam parte do tipo de teatro que o CRIA desenvolve.

A notícia de que Fábio teria tomado à iniciativa de criar um grupo de teatro, baseado na pedagogia do CRIA, despertou o interesse nos demais integrantes do Chão da Terra. Sua atitude era taxada por alguns jovens do Chão da Terra de estrelismo por ser o primeiro avançar no que devia ser feito.

“Um absurdo isso, gente! Não sou estrela coisa nenhuma. Só porque comecei a desenvolver o que aprendi, não significa que estou querendo ser melhor que vocês. O Fazer Valer é resultado do que aprendi aqui dentro. O que vocês também aprenderam. Se esta minha iniciativa incomoda tanto, deveriam fazer o mesmo.”, discursou contundente, entendendo que estava criando seu futuro e poderia despertar o de muitos, daquele local.
A partir dessa provocação os jovens atores passaram a se questionar: “É verdade. Se ele pode fazer, por que também não posso?”. A resposta veio em seguida.

Não somente o Chão da Terra se convenceu de que podiam ser capazes de liderar outros grupos. Mas também muita gente de fora, líderes de instituições e gestores, passaram a acreditar no potencial dos jovens.

O grupo Fazer Valer permaneceu na ativa por três anos. Durante esse tempo encenou três peças educativas, sempre fazendo refletir sobre as questões sociais do município. O grupo se desfez, mas os jovens integrantes passaram a compor outros e novos coletivos da cidade, na Companhia de Teatro Amador de Lagoa de Itaenga e em movimentos estudantis.

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