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Novos perfis de agricultores e agricultoras ganham o campo

28/07/2021 | 03h:36
por Eduardo Amorim

Nesta semana, se comemorou o Dia da Agricultura Familiar, 25 de julho, e o Dia do Agricultor, hoje (28). A noção de que o campo pernambucano é marcado apenas pela monocultura da cana na Zona da Mata, pela produção irrigada do São Francisco no Sertão ou pela pecuária no Agreste é passado. A diversidade dos sistemas agroflorestais, da produção certificada de orgânicos, dos pequenos animais adaptados ao clima semiárido também são marcas de propriedades em todas as regiões do Estado.

Neste 28 de agosto, Dia do agricultor e da agricultora, o Serta parabeniza a todos que fazem da agricultura familiar brasileira a maior produção de alimentos para o consumo da nossa população. Desde quem mantém a ancestralidade de plantas que eram cultivadas pelos indígenas antes dos europeus chegarem à América, todos estão de parabéns. Nos últimos anos, milhares de agricultores e agricultoras passaram pelas aulas, formações e receberam ecotecnologias através de projetos do Serta. Os perfis desses profissionais é extremamente diverso, assim como o que fazem atualmente.

Renatta Gil Peres se formou recentemente no Curso Técnico em Agroecologia do Serta. Ela faz parte de um grande contingente de estudantes, em Glória do Goitá, que vêm para o Campo da Sementeira e tinham um passado urbano. Mas se mudou com sua filha Iná para a propriedade da sua família em Gravatá, no Agreste Setentrional, e hoje as duas dividem a propriedade com Maria e Josefa (Nena), no que ela brinca que se tornou uma “terra de mulheres”.

Ela acredita que o mundo está pedindo calma, por isso valoriza muito o feminino. “Mulher tem um entendimento diferente do que é cuidado”, explica. Renatta e suas três companhias têm investido bastante em ervas medicinais e agora ela está iniciando a implantação de uma agrofloresta no seu sítio. Apesar de não ter uma produção mais voltada para o consumo delas quatro, a técnica em agroecologia conta que sempre se considerou mais uma agroecóloga, mas também está passando a se ver hoje em dia como uma agricultora.

Formado na segunda turma de Agentes de Desenvolvimento Local no Campo da Sementeira, Almir Costa de Araújo teve na época a missão de assumir a produção do sítio de seu pai em Lagoa do Itaenga. Ele se tornou nestes 20 anos uma referência na produção de orgânicos, tendo hoje além do sítio da sua mãe, duas hortas produzindo também na região de Palmeiras, em Glória do Goitá.

Comercializando atualmente nas feiras da UFPE e de Boa Viagem, no Recife, ele também repassa alguns produtos para outros agricultores e fornece para a Agroecoloja, iniciativa de comercialização organizada pelo Centro Sabiá. Hoje são cerca de 40 tipos de hortalilças, além de frutas, mas a opção na época foi feita pela necessidade, já que ele se sentia na obrigação de gerar renda o mais rápido possível para sustentar sua família e viu em produtos como alface, coentro e cebolinho a vantagem do ciclo curto (menos de dois meses).

Apesar de manter cinco funcionários, a rotina é de muito trabalho com tarefas determinadas para todos os dias da semana. Mesmo assim, ele gosta do seu estilo de vida, em que tem oportunidade de conversar e trocar informações com a clientela recifense. “O cliente (das feiras agroecológicas) hoje já está bem consciente por exemplo que ninguém consegue manter os produtos na melhor qualidade durante todo o ano”, explica.

Apesar de ter sido formado numa época em que a discussão sobre agroecologia ainda estava começando, Almir faz questão de dizer que muito do que conseguiu foi através da formação de ADL no Serta. Hoje, imagina expandir com uma estufa para produzir tomate, berinjela e outras culturas mais sensíveis, mas prometeu visitar o Campo da Sementeira ao ouvir falar da aquaponia, que reúne produção hidropônica de vegetais e de tilápias em um mesmo sistema.

No passado, Tiago José Filho e sua esposa Adeilda Constantino (conhecida como Tatá), trabalhavam com milho e melancia na Comunidade de Manari Velho (Zona Rural de Inajá). Ele agora está moldando sua propriedade para que se torne um modelo de propriedade agroecológica na região, pronta para receber visitas e formações, especialmente de pessoas que estejam de passagem pela unidade pedagógica do Serta em Ibimirim, na comunidade de Poço da Cruz.

“Ficava vendo o impacto ambiental porque era tudo com químico e sempre via que os atravessadores eram que levavam o melhor”, lembra o agricultor. Hoje, presidente de uma Associação de Apicultores e vice-presidente do Conselho de Desenvolvimento Rural do Município, ele ainda se considera um agricultor em transição agroecológica.

Desde o primeiro contato com o Serta, se formou técnico em agroecologia e teve a “oportunidade de participar do P1+2 (implantação de cisterna de produção) em que conseguimos dar andamento a vários projetos e agora está em andamento o Mutirão Ciranda, que está nos ajudando a fazer um sistema agroflorestal aqui na propriedade”. O sonho do casal é implantar ainda mais ecotecnologias na propriedade para que sua propriedade se torne modelo no semiárido.

Todos e todas que respeitam a diversidade que é o campo brasileiro estão de parabéns pela semana da Agricultura Familiar e dos agricultores e agricultoras. Mas é preciso defender o direito das mulheres, dos quilombolas, indígenas, das populações ribeirinhas e não somente dos grileiros e grandes proprietários.